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	<title>HAITI.ORG.BR &#187; história</title>
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	<description>Jornalismo, Direitos Humanos e Solidariedade</description>
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		<title>Haiti: a miséria de Deus</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Jan 2010 19:33:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Afonso Teixeira Filho*, para Haiti.Org
 Pelos porões imundos dos navios negreiros, chegaram à ilha de Hispaniola os escravos que seriam usados nas lavouras da cana-de-açúcar. Depois de mais de um século de exploração, esses escravos se revoltaram e fizeram daquela parte da ilha, o Haiti, a primeira nação colonial independente. Outros exploradores vieram e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><em>Por Afonso Teixeira Filho*, para Haiti.Org</em></p>
<p><em> </em>Pelos porões imundos dos navios negreiros, chegaram à ilha de Hispaniola os escravos que seriam usados nas lavouras da cana-de-açúcar. Depois de mais de um século de exploração, esses escravos se revoltaram e fizeram daquela parte da ilha, o Haiti, a primeira nação colonial independente. Outros exploradores vieram e o país, depauperado, nunca conseguiu livrar-se de uma outra faceta do colonialismo: a miséria. Hoje, caiu sobre a nação um castigo pior: um castigo vindo dos céus.</p>
<p><img class="alignnone size-medium wp-image-465" title="terremoto escombros" src="http://haiti.org.br/wp-content/uploads/2010/01/terremoto-escombros-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" /></p>
<p>Neste mês de janeiro do ano de Nosso Senhor de 2010, ocorreu uma das maiores catástrofes humanitárias desde setembro de 1945, quando o Japão quase foi varrido do mapa pelas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos. Aquilo tinha sido obra dos homens. Mas hoje não foi. Foi obra de Deus.</p>
<p>As Nações Unidas publicaram um parecer afirmando que o terremoto no Haiti tinha sido mais devastador que o maremoto no Oceano Índico. Creio que não consideraram apenas o número de mortos (já que se estima que os mortos no Haiti cheguem a 200 mil). Certamente consideram o fato de o país ter sido destruído quase por completo. A Indonésia conseguiu se recuperar. O Haiti não conseguirá. Mas o que fez essa gente para merecer tamanho castigo?</p>
<p>A ilha começou a ser ocupada já por Colombo, e os espanhóis trataram logo de escravizar o índio. Mas o Imperador Carlos V, sensibilizado pelos relatos de um padre, proibiu essa desumanidade. Assim, começaram-se a comprar escravos trazidos da África.</p>
<p>O tráfico de escravos era o maior negócio da época. Todo o sistema colonial dependia dele. Teve início no século XV com os portugueses, e todas as nações que se lançaram ao mar trataram de obter uma parte do mercado da escravidão. No decorrer dos séculos seguintes, esse comércio fortaleceu a burguesia que pôde patrocinar as idéias iluministas de liberdade e igualdade, fundamento ideológico do capitalismo.</p>
<p>Os próprios escravos haitianos almejaram essas idéias. Durante os últimos dias da escravidão, os negros libertos e os mulatos reivindicaram participação na Assembléia da França revolucionária. Os franceses o permitiram, pois toda gente teria direito de participar da Assembléia. Mas os próprios haitianos (os brancos) não deixaram nem os mulatos nem os negros irem à França alegando que negro não era gente.</p>
<p>Toussaint L’Ouverture, líder da revolta contra a escravidão, não queria que São Domingos se separasse da França, pois acreditava nos ideais revolucionários. Foi capturado por Napoleão e morreu numa prisão da França. Jacques Dessalines, outro líder da rebelião de São Domingos, conquistou a independência do país e fundou a república do Haiti no anos de 1804.</p>
<p>O país então passou por um período de instabilidade e acabou perdendo parte de seu território para a Espanha (República Dominicana). A partir da segunda metade do século XIX, o golpe de Estado seria a regra no país, prática essa que culminou com a invasão norte-americana. O país manteve-se ocupado entre 1915 e 1934. De 1957 até 1986, foi dominado pela dinastia Duvalier, que perseguiu o catolicismo e consolidou a religião vodu. Passou então a aterrorizar o povo com ela e com uma polícia repressora. Nesse período, chegou à ilha a febre suína, vinda da África. Os Estados Unidos obrigaram o sacrifício de todos os porcos. Isso revoltou a população camponesa, desestabilizando o governo de Duvalier.</p>
<p>Os regimes políticos que se seguiram foram marcados pela antiga prática dos golpes de Estado. Mesmo a eleição democrática de Jean-Bertrand Aristide em 1990, não garantiu a ele mais que alguns meses no poder. As organizações internacionais passaram, então, a pressionar o país pela volta do presidente deposto e, posteriormente, para que o país retomasse a estabilidade política. Diversas foram as pressões. Finalmente, a ONU interveio com uma “força de paz” (uma ocupação de fato). A missão das Nações Unidas para a estabilidade do Haiti (Minustah) está presente no país até hoje.</p>
<p>De tudo o que foi exposto, pode-se concluir que essa nação castigada nunca teve paz nem estabilidade. Tudo o que a interferência de outros países consegue é aumentar essa instabilidade. No entanto, o Haiti precisa de ajuda. Espera-se que essa ajuda seja dada sem que nada seja exigido em troca. E, ironicamente, essa ajuda terá de vir do homem, uma vez que Deus, como havia feito com os antepassados dos haitianos, deixou de olhar por eles.</p>
<p style="text-align: right;"><em>Senhor Deus dos desgraçados!<br />
Dizei-me vós, Senhor Deus!<br />
Se é loucura&#8230; se é verdade<br />
Tanto horror perante os céus?!<br />
(Castro Alves, “O navio negreiro”)</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?<br />
Em que mundo, em qu’estrela tu te escondes<br />
(Castro Alves, “Vozes d’África)</em></p>
<p><em>* <strong>Afonso Teixeira Filho</strong> é tradutor da principal obra sobre a história da independência do Haiti &#8211; &#8220;Os jacobinos negros&#8221;, de C.L.R.James, lançada no Brasil pela Boitempo Editorial.</em></p>
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