O Projeto
O QUE É
Um site jornalístico sobre o Haiti, que reúne, em primeira mão, notícias, produções multimídia, análises críticas, artigos e entrevistas, documentos e traduções, por meio do trabalho de jornalistas independentes e usuários colaboradores. Leia a íntegra dos projetos em português, inglês, francês e espanhol (.PDF).
MISSÃO
Informar a população brasileira e sul-americana sobre o que ocorre no Haiti, com foco na cidadania, na política, nos direitos humanos, na economia e na cultura.
PÚBLICO ALVO
Ativistas brasileiros, ativistas haitianos (mulheres, campesinos, sindicatos), ativistas estrangeiros, pesquisadores, membros de organismos multilaterais, profissionais do corpo diplomático, militares, políticos, profissionais de mídia brasileiros e estrangeiros, estudantes de comunicação, artistas.
JUSTIFICATIVA
O Haiti, o mais pobre e empobrecido país das Américas, é também o mais bem acabado resultado da exploração global e dos efeitos maléficos da onipotência estadunidense e da política intervencionista francesa. Durante anos, organismos internacionais também reproduziram esse conservadorismo na exigência de contrapartidas ou na adoção de políticas neoliberais, o que, na prática, manteve a situação haitiana como humanamente alarmante. Atualmente submetido a uma intervenção militar “pacificadora” comandada pelas Nações Unidas, o país segue sua luta em busca de democracia, soberania e auto-determinação.
Desde 1993, o Conselho de Segurança da ONU emitiu 30 resoluções oficiais sobre problemas no país. Nos últimos 15 anos, cinco missões de paz estiveram no Haiti. A Minustah deve se alongar, pelo menos, até as próximas eleições presidenciais, ficando em território haitiano mais três anos, segundo fontes diplomáticas. A situação, no entanto, ainda demonstra fragilidade político-institucional, econômica e social. A fragmentação partidária, a ausência de uma coalizão nacional sólida e a herança polêmica do ex-presidente Jean Bertrand Aristide mostram isso.
A realidade social é crítica por décadas de empobrecimento. Os piores índices de desenvolvimento humano pertencem ao país: a expectativa de vida das mulheres é de 56 anos e dos homens 53; 59% dos adultos são analfabetos; o desemprego é crônico; não há escola e hospitais de atendimento gratuito para a maioria da população; a aids atinge 4,5%; uma mãe morre no parto a cada 190 nascimentos; uma em cada oito crianças morre antes dos cinco anos. O orçamento público do Haiti, país classificado como altamente endividado, não supre as necessidades da população.
Uma enorme quantidade de organizações não-governamentais, representações diplomáticas e movimentos sociais atuam no país de maneira a sanar a carência de políticas públicas para a garantia de direitos básicos. Apesar disso, muito pouco dos reais problemas do Haiti são conhecidos internacionalmente, sobretudo nos países sul-americanos que atualmente se envolvem como integrantes da ação da ONU ou por diálogo direto com o governo haitiano.
No Brasil, país líder do braço militar da atual missão da ONU, pouco se sabe sobre o imbróglio político do Haiti e sua realidade. Em mais de quatro anos, a imprensa brasileira fez uma cobertura ligada a estereótipos dos problemas. Chamou de “gangue” qualquer grupo armado, usou estatísticas e informações sem origem clara e apelou para as fontes militares, as únicas que falavam português, para entender o que se passava pelo país. Na Argentina, no Uruguai e no Paraguai, acontece algo similar. Há uma guerra de informação desfavorável à soberania haitiana.
A discussão iniciada pelas vozes presentes no Fórum Social Mundial e na Missão Internacional de Investigação e Solidariedade ao Haiti foi importante para apresentar novos parâmetros políticos. Mas na comunicação isso ainda é incipiente. São poucos os jornais e blogs que conseguem uma repercussão mais cuidadosa e aprofundada da discussão. No Brasil, dois livros-reportagem foram lançados com a visão exclusiva dos capacetes-azuis brasileiros. E as reportagens continuam a manter uma visão excessivamente militarista sem levar em conta o foco humanitário, civil e respeitoso com as demais vozes haitianas.
O projeto Haiti.org compreende a informação como um direito humano e o jornalismo como um pilar da democracia. Acreditamos que somente por meio de debates plurais e diversos sobre o tema envolvendo os agentes sociais desse processo e da realização de investigações livres, sem vínculos partidários e de interesses prévios, podemos construir uma retrato fiel da situação desse país miserável e rico, tão próximo dos brasileiros e sul-americanos
OBJETIVOS
– Tornar-se referência informativa sobre Haiti, construindo uma visão da conjuntura sócio-econômica e humanitária atual;
– Analisar criticamente o governo brasileiro e as Nações Unidas no Haiti, com base na atuação da Minustah;
– Contar a história do Haiti, de seus inúmeros golpes de Estado e das forças de paz da ONU que estiveram no país;
– Contar a história da presença militar brasileira no Haiti, seu papel e pretensões;
– Ser um canal de expressão das diferentes vozes da sociedade (ONGs e movimentos sociais), dos governos (sobretudo latino-americanos e caribenhos) e dos organismos internacionais sobre o Haiti, construindo um ambiente plural de debate e reflexão;
– Estimular o debate sobre o que ocorre no Haiti na imprensa, nas universidades, nas entidades de classe e organizações sociais nacionais e internacionais;
– Priorizar assuntos relacionados aos direitos humanos, política, situação econômica, operações militares, conceitos de segurança pública, soberania e auto-determinação no Haiti;
– Incentivar a tradução de documentos e textos importantes para possibilitar um intercâmbio de informações em português, inglês, francês, espanhol e creoule.


Os algozes humanitários
Por Elaine Tavares – jornalista
A gente do Haiti é gente de muito valor. Foi o único país, no mundo, em que os escravos fizeram uma revolução contra seus senhores e venceram. Foi em 1791, logo depois da revolução francesa. A ilha caribenha ferveu em desejos de liberdade e o povo armado – mais de 500 mil negros num espaço onde viviam apenas 32 mil brancos – botou os colonizadores franceses para correr. Toussaint de Loverture, Dessalines, Alexandre Pétion. Gigantes da luta de libertação que, com suas idas e vindas, erros e acertos, fizeram do Haiti, com a força das gentes, uma nação livre, digna, soberana. Primeiro país abaixo do Rio Bravo a se fazer independente em 1801. Petión acolheu Bolívar e foi o responsável pela virada na cabeça do libertador. Deu a ele guarida, ajuda e só pediu em troca que ele libertasse os escravos da América do Sul. Bolívar mudou.
Mais tarde, as lutas intestinas revolveram o país e várias lideranças passaram pelo poder, até que no início do século XX o mal fadado vizinho do norte, os Estados Unidos, decidiu intervir no país para cobrar dívidas, uma história muito conhecida pelos países latino-americanos. Desde aí, o povo do Haiti sofreu fortes reveses, culminando com a dinastia Duvalier, sanguinária ditadura de pai e filho, que perdurou de 1957 até 1986. Regime de terror, tortura e perseguições, enfrentado com valentia pela população, que pagou caro por isso. A esperança veio em 1990 quando o povo elegeu Jean Aristide, um padre ligado a teologia de libertação. Mas, de novo, os Estados Unidos meteu o bedelho na vida do país, evitando que por ali tremulasse alguma bandeira vermelha. A eles, no Caribe, já bastava Cuba. Sem grandes riquezas para serem cobiçadas, a gente do Haiti sofreu “preventivamente”. Em 2004, depois de idas e vindas, com o apoio dos EUA, Jean Aristide se elege novamente, mas é deposto em seguida por um golpe, igualmente apoiado pelos EUA, mergulhando novamente o país num caos político.
É quando entram as “forças de paz” da ONU, ocupando o Haiti a pedido dos Estados Unidos. Vários países, tendo Brasil à frente, enviaram suas tropas, alegando que estavam ajudando a manter a ordem, De novo, o povo do Haiti ficava sob a tutela das armas alheias, como se não fosse capaz de definir por si mesmo o seu destino. Desde aí o país está ocupado militarmente, com denúncias diárias de mortes, torturas, estupros, violências de toda ordem. Morte diária, cotidiana, naturalizada. Estas não saem nos jornais. Contra elas não gritam os Casoys, os Bonners e outras bocas alugadas.
Agora, não bastasse toda esta história de dominação, o Haiti sofre uma tragédia natural, uma a mais, nem tão natural, já que é resultado da destruição que vem sendo imposta ao planeta pela ganância dos donos do capital. Milhares de pessoas estão mortas, ceifadas num único dia. Tragédia massiva. Então os jornais se inundam de matérias sobre a ajuda humanitária. Países de todas as cores enviam remédios, alimentos. A Globo e CNN destacam a ajuda estadunidense, “governo tão bom”, o mesmo que deixou a míngua os atingidos do Katrina. As pessoas choram diante da TV, organizam ajuda solidária nos seus bairros, observam aliviadas a humana bondade da França, da Alemanha e até do FMI (pasmem) que decidem doar alguns punhados de dólares. Falam ainda da providencial presença dos “cascos azuis”, soldados da ONU, que estão ajudando no resgate das vítimas, no auxílio aos feridos, etc…
Sim, me compadeço com a tragédia haitiana deste triste 13 de janeiro. Mas, com Venezuela, com Cuba e com outros tantos lutadores sociais tenho feito isso desde que as forças da ONU entraram no país a pedido dos EUA. Contra Lula gritando pela retirada das tropas, e com Fidel e Chávez, entendendo que se alguma ajuda precisava o povo da ilha caribenha era a de médicos, engenheiros, professores, dentistas, enfim, gente que amparasse e fortalecesse as gentes. Não soldados armados para reprimir, matar, mutilar, torturar, estuprar. Doem em mim, sim, as mortes massivas deste dia 13, mas me doem também, com igual força, as mortes cotidianas, recorrentes e naturalizadas no Haiti, no Afeganistão, no Rio de Janeiro, em São Paulo, na periferia de Florianópolis. A ajuda humanitária nestes dias de inferno pós-terremoto não pode ser uma mera musculação de consciência daqueles que doam um quilo de arroz e dormem tranqüilos. Há que se comprometer com a proposta de mudança e libertação. A tragédia haitiana é muito maior do que este terremoto de 13 de janeiro. O terremoto da dependência, da subordinação, da superexploração do trabalho, da ocupação armada é cotidiano, e já dura tempo demais. O país está em escombros e não é de hoje. Ajudar as vítimas da catástrofe do tremor é urgente e necessário, mas não dá para saudar os algozes. Estes que posam de bons moços, enviando alguns dólares, são os responsáveis pelo terremoto cotidiano. Isso não podemos esquecer!
Otima iniciativa. Parabens! Pena que nao haja outros sitios como esse que tragam informacoes sobre outros paises Latino-Americanos e Caribe.
Parabéns pelo projeto e farei questão de divulgar este trabalho.
Os policiais militares brasileiros “boinas azuis” estão a disposição em contribuir.
Att.,
Sérgio Carrera