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Tropas dos Estados Unidos no Haiti: a “ajuda militarizada”

A operação militar montada pelos Estados Unidos após o terremoto devastador no Haiti é um exemplo de como guerra e ajuda humanitária já dividem as mesmas trincheiras na geopolítica. A tragédia foi a brecha para estadunidenses realocarem tropas no Caribe e mostrarem que podem atropelar vizinhos e as Nações Unidas.

A lembrança da destruição do terremoto no Haiti tem cheiro e imagem: os cadáveres negros em Porto Príncipe levados por caminhões para serem enterrados em valas comuns, sem identificação, empilhados como lixo de um aterro. E mesmo essa violenta imagem é pequena para o tamanho do drama de um país, que, agora, ganhou para si mais um rótulo entre os tantos de seu empobrecimento. O de possuir uma “geração de desaparecidos”, que se perdeu em uma das piores catástrofes desde o tsunami asiático e das bombas de Hiroshima e Nagasaki.

O tremor de 7 graus na escala Richter foi arrasador. Derrubou o QG da burocracia das Nações Unidas, além do Congresso haitiano, prédios ministeriais e o palácio presidencial, símbolo máximo do governo nacional que tentava andar com as próprias pernas desde a eleição de 2006. O colapso da sede do governo, uma espécie de Casa Branca caribenha, foi o símbolo da derrocada política pós-terremoto. O segundo piso da construção ruiu quase completamente sobre o primeiro. Debaixo da cúpula principal ficaram soterrados os bustos de Alexandre Pétion e Simon Bolívar, ambos heróis ligados à primeira república negra da história.  O presidente René Préval e o primeiro-ministro Jean-Max Bellerive estavam perdidos entre tantas carências.

O primeiro grito de socorro era para a ONU, que vem renovando anualmente o mandato da Minustah, a missão para a estabilização do Haiti, e ainda não conseguiu implementar projetos civis em escala no país. Todavia, o abalo e seu impacto foram democráticos para pobres e ricos: as Nações Unidas perderam seu staff de primeiro escalão. O tunisiano Hedi Annabi e o brasileiro Luiz Carlos da Costa, chefe e vice-chefe no Haiti, respectivamente, faleceram entre os escombros. Entre os capacetes azuis também houve baixas.

O segundo grito de socorro de René Préval foi direto ao governo estadunidense – a essa altura já informado suficientemente pela embaixada do Haiti, a maior de Porto Príncipe e a representação diplomática que mais injeta dinheiro no país. Préval pediu quase tudo. Os estadunidenses, agora chefiados pelo presidente Barack Obama, prontamente responderam. E aproveitaram a ajuda humanitária para retomar sua influência direta na região com tropas militares, o que não faziam desde 2004.

Aliás, aqui vale uma pausa: a crise política aberta há seis anos teve dois eventos cruciais, publicamente denunciados, mas nunca investigados. Um deles, o financiamento estrangeiro a Guy Phillipe, ex-chefe de polícia da cidade de Cap-Haïtien que recebeu treinamento das forças especiais estadunidenses em 1990 no Equador. Phillipe armou uma milícia para marchar a partir da fronteira da República Dominicana e tentar derrubar o presidente Jean Bertrand Aristide. Quem o teria financiado? O outro acontecimento foi a retirada, no dia 29 de fevereiro, do presidente Aristide e sua família num avião comandado pelos fuzileiros estadunidenses. Levados para um “exílio” na África, Aristide acusou um golpe de Estado em sua primeira entrevista1. A situação se perdeu no jogo diplomático e no pronto reconhecimento do governo provisório por EUA, Canadá, França e até Brasil, que, a essa altura, já era convidado a comandar as tropas da ONU. Era o 33º golpe de Estado da história haitiana.

Os EUA mantiveram, com apoio de França, Canadá e Chile, uma força militar interina no Haiti até que a ocupação das Nações Unidas tivesse o comando. E a liderança do braço militar da missão foi dada ao Brasil, pois naquele momento, o governo George W. Bush estava atolado até o pescoço com a invasão ao Iraque. Começava o período em que estadunidenses deixavam o Haiti, a poucos quilômetros de sua costa, sob uma ocupação controlada pelo Conselho de Segurança da ONU. Em todas as ocasiões que podia, a ex-secretária de Estado Condoleezza Rice elogiava pesadamente o desempenho do Brasil no Haiti.

Bem, esse intervalo de ação militar dos EUA no Haiti terminou no terremoto. Com o governo democrata, a “operação humanitária” foi gigantesca. Se antes a soberania do povo haitiano era ameaçada com negociações econômicas e políticas, o momento atual concretiza o domínio do Haiti como extensão do território estadunidense. O próprio comando militar da ONU foi atropelado, embaraço esse devidamente negado posteriormente.

O controle do abalado Aeroporto Internacional Toussaint L’Overture pelos EUA indicava a primeira ação polêmica. O número de voos foi limitado a 60 por dia. A prioridade seria desembarcar a estrutura militar que chegava ao país. Aeronaves com equipamentos e ajuda humanitária foram desviados para a República Dominicana. De 14 a 19 de janeiro, período crítico da ajuda às vítimas, a ONG Médicos Sem Fronteiras teve 15 aviões enviados para Santo Domingo. A chegada a Porto Príncipe de 85 toneladas de equipamentos médicos foi postergada, enquanto a estrutura militar dos EUA era priorizada. Só depois de novas reclamações, o número de voos foi aumentado para cerca de 100 por dia. Também foi ícone da ocupação o desembarque do helicóptero com um pelotão de fuzileiros no gramado do combalido Palácio do Governo.

A mobilização incluiu o Departamento de Defesa, Usaid, Guarda Costeira e outros órgãos, num total de 16 mil soldados e trabalhadores, número maior do que todo o efetivo da Minustah. Até se cogitou usar a Base de Guantánamo para receber desabrigados haitianos.

A saraivada de críticas contra a ação militar gigantesca fez com que o Departamento de Estado tirasse a logística bélica de seu balanço de 10 dias de ações no Haiti. Afinal, tratava-se de uma operação de ajuda ou de uma ocupação militar? As duas coisas. Ironicamente, essa tem sido uma estratégia usada cada vez mais como forma de amenizar rejeições à militarização do território e a posterior adoção de “contrapartidas” com esses países. Isso quando a ajuda e a doação não são somente promessas no calor da comoção de uma crise social e política…

Um exemplo: em 2004, os países ricos se comprometeram com doações de US$ 1,08 bilhão ao Haiti e sequer enviaram todos os recursos prometidos. Agora, o Fundo Monetário Internacional (FMI) chegou a anunciar um empréstimo “sem juros”. Parecia piada, justamente vinda de um órgão que forçou o governo a implodir as taxas de importação de um dos principais produtos agrícolas do país, o arroz, posteriormente comprado do excedente estadunidense em detrimento da produção local.

Resta-nos ver quando as novas promessas de doação vão chegar e como serão aplicadas. Há indícios do que está por vir. Em janeiro, foi realizada a primeira reunião para definir a metodologia adotada para a aplicação dos recursos dos países doadores. Ou seja, o começo da discussão diplomática. A secretária de Estado, Hillary Clinton, pediu que haja “mecanismos de coordenação, de supervisão e de verificação” para garantir que o dinheiro está sendo gasto de modo “eficaz”. E quem vai definir isso são os doadores.

Em entrevista recente, a ativista Naomi Klein fez uma comparação da tese de seu livro “The Shock Doctrine” ao terremoto do Haiti. Para ela, a doutrina usa desastres para evitar a democracia, sob o argumento de que as pessoas não são capazes de tomar decisões e alguém precisa fazer isso por elas. Políticas impopulares são adotadas muitas vezes a partir dos desejos de uma elite. “No caso do Haiti, a Heritage Foundation nem sequer esperou 24 horas para pedir ao governo Obama reformar a economia do Haiti”, diz Klein². Só para registrar, como sabemos, a Heritage Foundation é o núcleo de ideias econômicas da direita americana e formou quadros do governo Bush.

O Brasil está em seu momento mais delicado desde a decisão política de enviar tropas ao Caribe. Precisará abrir os cofres e ajudar a articular o uso do dinheiro para fazer diferença na vida dos haitianos, sob o risco de ver os anos de ocupação militar irem por água abaixo. A missão recomeça. O anúncio do emprego de R$ 376 milhões e o envio de mais soldados foi apenas o início.

O Haiti atual se tornou uma distorção da beleza de sua história, marcada pela conquista da independência por ex-escravos. Mais de duzentos anos depois do sonho de liberdade, a realidade é que falta muito para conseguir soberania para o povo haitiano. Um terço da população foi diretamente afetada pelo terremoto, a economia está mais frágil que nunca para se reerguer e a reboque da ação estrangeira. Será a luta para não ser colônia novamente.

* Aloisio Milani é jornalista e roteirista, viajou como repórter quatro vezes ao Haiti. Coordena a rede colaborativa e independente haiti.org.br. Artigo publicado originalmente em Le Monde Diplomatique Brasil, na edição de fevereiro de 2010.

Notas:
1 Aristide concedeu uma de suas primeiras entrevistas após o golpe ao site independente Democracy Now!2 Entrevista à Newsweek no dia 22 de janeiro (link)

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