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Dany Laferrière: o terremoto e a força do povo haitiano

Dany Laferrière é um dos expoentes da literatura caribenha contemporânea. Nascido em Porto Príncipe, na década de 70 o escritor teve de deixar seu país e partir para o exílio em Montreal, Canadá, fugindo da repressão do regime do ditador François Duvalier, o Papa Doc.

Laferrière estava em Pétionville, bairro no alto da capital haitiana, local de mansões e embaixadas, quando houve o terremoto que já matou mais de 150 mil vítimas. Neste início de fevereiro, o escritor falou da experiência na Biblioteca do Arsenal – que integra a Biblioteca Nacional da França, em Paris.

O texto original foi publicado na revista francesa L’Humanité. A tradução para o português é de Daniel Milazzo, para o Haiti.Org.

“Quando aconteceu, eu pensei: não vou me deixar intimidar por um terremoto. Esse sismo de magnitude 7 a 7,3 na escala Richter é paradoxal. É possível correr sem cair. Entretanto, as casas mais bem construídas – resultado da orgia de concreto que a ilha viveu para enfrentar os ciclones – desabaram com as pessoas dentro. O peso das construções as fez vacilar de acordo com um princípio do judô: é a sua própria força que te matará. No jardim do Hotel Karibe, onde eu estava com Michel Le Bris, nenhum ramo de flor foi quebrado. Dormimos na quadra de tênis. Quando ficamos sabendo que os palácios tinham ruído, assim como o ministério das Finanças e a catedral, pensamos: só há mais nada além dos seres humanos, todo o poder, todas as classes sociais desapareceram. 

Nós nos deitamos no mesmo solo onde sentimos muito intesamente os 43 tremores seguintes. Sentíamos realmente o menor movimento da terra e então pensei que nunca mais poderei confiar nela. Em caso de terremoto, a terra não existe mais. Ela rola, parece que alguém a está sacudindo como um lençol. Pouco após o amanhecer, Lyonel Trouillot [escritor e poeta haitiano] veio se encontrar comigo. Nós fomos ver minha mãe. O bairro inteiro estava destruído. Nunca tinha conhecido um fenômeno como tal : as casas caíam ao meu redor de maneira imprevisível. Quando chegamos em frente ao abrigo de Franketienne [poeta, escritor e dramaturgo haitiano], eu o encontrei em lágrimas. Ele me mostrou sua « fortaleza », em outras palavras, sua residência, uma autoficção construída para guardar seus quados e seus manuscritos. Ela estava bem prejudicada. Ele me disse que meia-hora antes do sismo ele repetia um solo e pronunciava as seguintes palavras : « Pouco a pouco, tudo se fissura, tudo se despedaça ». Ele mora a dez minutos da casa de minha mãe. Avistei um sobrinho que passava por ali e que mora na casa dela. Ele me disse que ela estava viva. Quando ocorreu o tremor de terra, eram dez para as 5, 6 horas. É a hora mais improvável em Porto Príncipe. Após o trabalho, as pessoas não vão diretamente para suas casas. Até as 6 horas, cada um é livre, ninguém sabe onde estão os outros. Quando cheguei na casa de minha mãe, encontrei-a muito nervosa. Ela me disse : « Tenho 90 anos. Vi de tudo : oito golpes de Estado, os Duvalier, o pai, o filho e o neto Aristide, os ciclones, dentre os quais aquele de um ano atrás, uma inundação… mas não esperava isso. » 

Não sei se, mentalmente, aqueles que vão continuar nesta tera que habitam não continuarão a viver com o sentimento de uma profunda instabilidade. Haverá um problema psicológico de equilíbrio, mesmo que seja um povo forte. Esse terremoto é, sem sobra de dúvida, o maior acontecimento da ilha produzido sem manobras humanas desde a independência. Desta vez, todo o mundo compreende esta simples realidade : um terremoto dilacerou um país que já estava de joelhos. O racismo não joga apenas para embaralhar as cartas. A desgraça haitiana permitu que se penetrasse em zonas onde ninguém ia há muito tempo. Em Montreal [Dany Laferrière mora em Québec], vi reagir pessoas que não haviam se mobilizado desde o apartheid na África do Sul. Os jovens dos Estados Unidos estão muito excitados com o assunto pois estão apaixonados pelos ensejos ecológicos. O Haiti passou a fazer parte da visão planetária desse grupo. A ilha não é mais enxergada como um dado folclórico mas como um pedaço do mundo. Não é mais uma questão de lugar, mas uma questão de tempo. Aconteceu agora.

De repente, as pessoas de todo o mundo passaram a amar o Haiti sem saber como canalisar esse amor, mas acredito que esse momento terrível, que custa infinitamente caro, tem de ser aproveitado como o que ocorreu na luta pela independência. A política haitiana também tem que agarrar o momento. Há dez anos que não há mais debate. Que não há mais governo. O acontecimento é, paradoxalmente, uma chance, desde que as discussões sejam diretas, eficazes. Sob uma ditadura, o discurso do poder seria forte demais.

Dessa vez, escutamos o clamor do povo. Os haitianos são pessoas excepcionais, corajosas, disciplinadas, pacientes, mutuamente generosas e imaginativas. Todo o mundo verificou essa força. Ela deveria ser aplicada através de uma consciência nacional sem discurso ideológico. É um momento novo, inédito a se compreender. Quanto aos artistas, um grande poeta disse : « Os deuses enviam sofrimentos aos pobres para que eles os transformem em cantos ». Então, nós não vamos ficar de braços cruzados.

O grande receio é de ir ver o « doente » Haiti uma ou duas vezes e depois fica nisso. É preciso que o Haiti retome o diálogo. Durante uma semana, o Haiti fez funcionar o mundo midiático. Esse acontecimento fez os ocidentais acordarem por pelo menos sete dias. A televisão milagrosamente conseguiu captar a maneira como os haitianos encaram os fatos, permanecem plácidas apesar das carências, calmos, atentos, cheios de humor, e isso aproximou os ocidentais. Trata-se de intercambiar bens e emoções. É preciso haver uma relação de mercearia. Que as pessoas não enviem um monte de dinheiro de uma só vez. Não acelerar as coisas, mas se perguntar o que o Haiti nos traz. É preciso que o Haiti guarde aquilo que pode dar e que essa relação dure. Disso se trata um intercâmbio de bens e emoções. Então, vamos recomeçar. Com esse acontecimento, foi enfim consumada a morte de Duvalier, quem nos bloqueou o espírito por tanto tempo. Nós vamos sair desta neurose. O tremor de terra pôde tocar zonas sensívels, o coração e o corpo, mas o espírito do lucro não comeu a alma dos haitianos. É a cultura que estrutura o país. 

O escritor tem o papel de intervir, de anotar. Conheço meu país, conheço este olhar distanciado que ele tem sobre esses acontecimentos como se fosse um espetáculo. Essa distância, podemos tê-la em nossa casa, mas eu me pergunto se ela é possível a partir do exterior. Os jornais exageram muito. Quando se fala do Haiti, se escuta sempre a mesma coisa: “Primeira República negra”, “pérola das Antilhas”, e bruscamente torna-se “país de 32 golpes de Estado, país de Duvalier”, “ditadura tropical”… É pesado. Nunca dá para começar uma discussão tocar nesses pontos. Desde o terremoto, eu vejo “Haiti querido” escrito por tudo quanto é lado. Rapidamente tomei a palavra nos jornais para dizer: “Parem com a expressão maldição”. O Haiti acaba de entrar no cenário internacional de maneira clara e compreensível. Não precisamos mais que colem certas expressões na nossa pele. É preciso, sobretudo, que o diálogo não seja cortado. O fundo do diálogo é a liberdade. As pessoas de poder gostam dos discursos bem fechados, pois têm medo da liberdade.”

2 comentários

  1. MEU QUERIDO QUERO SER VOLUNTARIA A AJUDAR O HAITI ….ME DER CHANCHE DE ESTAR ENTRE VCS …QUE DEUS ME AJUDE …UM FORTE ABRAÇO.

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