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CSA: para que tantos militares no Haiti pós-terremoto?

Por Alexandre Praça (CSA)

Na semana passada, a Confederação Sindical de Trabalhadores/as das Américas (CSA) em conjunto com a Confederação Sindical Internacional (CSI) enviou um grupo de apoio ao Haiti. A idéia foi ter um contato direto com o movimento sindical do país para delinear as estratégias de auxilio às vítimas do terremoto. Centrais sindicais do mundo inteiro atenderam ao chamado de solidariedade da CSI em apoio ao povo haitiano.

A assessora de direitos humanos da CSA, Leandra Perpétuo, foi uma das integrantes da missão sindical. Já de volta ao Brasil, ela nos relatou o espírito de dignidade da população do país, os projetos do movimento sindical haitiano e a tarefa de reconstrução. Para a socióloga, o que mais lhe impressionou foi a  ocupação militar da ilha: “Mas não no sentido de botar ordem e sim no sentido de botar medo mesmo”.

Conta um pouco sobre essa missão no Haiti. Qual foi a idéia e o que exatamente foi feito no país?
A idéia surgiu da própria Confederação Sindical Internacional (CSI). A intenção foi saber como estava a nossa central sindical afiliada, a CTH (Confederação de Trabalhadores Haitianos) e os outros sindicatos com os quais a gente tem relação. Queríamos saber como estavam as pessoas, suas famílias, do que eles estavam sobrevivendo e levar algum tipo de ajuda. Para isso, foram liberados 20 mil euros por parte do fundo geral da CSI.

A gente buscou trabalhar com os sindicatos da República Dominicana, porque eles eram a única via de acesso até o Haiti, no sentido de poder comprar e levar esses mantimentos não só para os sindicatos como para todas as pessoas que fossem possíveis. Nós queríamos saber como essa ajuda poderia ser efetiva e quais seriam os próximos passos a dar.

Na segunda-feira, 25 de janeiro, já havia sido feito um reconhecimento dos lugares que estavam recebendo a ajuda e foi levado o primeiro carregamento de mantimentos. Nossa opção foi não levar para os grandes acampamentos, mas sim para os pequenos em lugares mais afastados de onde estão as missões internacionais. Isso porque nos centros principais, de uma forma ou outra, acreditamos que as coisas estão chegando. Mas nesses lugares pequenos, que estão longe, a ajuda não chega. Isso se vê porque quando se caminha por esses acampamentos, sempre se vê placas dizendo “precisamos de ajuda, de comida, água”.

Você chegou a presenciar a distribuição de ajuda?
Sim e o que mais me impressionou foi que era completamente diferente do que se vê pela TV. É falsa essa idéia de que as pessoas estão enlouquecidas e pulam em cima de quem está oferecendo auxílio. Isso não aconteceu. As pessoas ficavam em fila, esperando a sua vez, recebendo a sua bolsa de mantimentos. Foi tudo extremamente tranqüilo e sem tumulto. Isso já me tirou a idéia de que tudo estava uma bagunça. Outra coisa que me pareceu, foi que as pessoas estão tentando voltar a ter uma vida normal, tentando tocar a vida para frente e não pensar muito no que aconteceu. Eles estão tentando pensar no que fazer daqui pra frente.

E como foi o contato com o movimento sindical haitiano?
Nós também fomos até a sede da CSH (Coordenação Sindical Haitiana), que ficou praticamente intacta. Ali encontramos o secretario geral, Carlo Napoleon, conversando com outros sindicalistas e planejando a organização das tarefas de apoio. Havia uma promessa do governo de que eles receberiam mantimentos como centrais sindicais. Mas isso não se realizou. Inclusive, quem estava responsável por isso era o Ministro do Trabalho, mas ele abriu mão desse cargo porque disse não ter condições de sozinho organizar tudo isso.

Também tivemos uma reunião com todos os sindicalistas. O que ficou acertado é que as doações seriam enviadas ao centro de formação da CTH (INAFOS) que é onde estão alojados sindicalistas e outras pessoas. Os sindicatos então receberiam uma parte, para que a ajuda não se restringisse a eles, mas para todos.

No INAFOS, qual a impressão que teve da gente que está alojada por ali? Eles estão bem? Porque obviamente não são todos sindicalistas.
Aparentemente as pessoas estão inteiras e vivas. Mas o que a gente tem medo é o dano psicológico que causou tudo isso. Uma segunda questão é a forma que eles estão vivendo. Todo mundo está dormindo no chão, com só uma cobertura servindo de teto. Estão ali quase 200 pessoas, incluindo idosos e crianças. Quanto às condições de higiene, quando você compara com o restante da cidade, é praticamente um hotel cinco estrelas porque tem água, comida,e se servem pelo menos duas refeições ao dia. O problema é que as pessoas não têm nem o mínimo de privacidade. Está todo mundo dormindo ali e os banheiros são poucos.

Que tipo de iniciativas os sindicatos estão tomando?
O Paul Loulou, secretario geral da CTH, nos falou que ele quer dar o exemplo. Eles querem botar o centro para funcionar como lugar de formação. Segundo ele, por causa do terremoto a vida não pode parar. Eles estavam tentando algumas parcerias para utilizar o centro para formação de atividades que possam dar início à reconstrução da cidade, formando pedreiros e eletricistas. Existe também um projeto de criação de um restaurante popular em um local fora de Porto Príncipe.

As notícias que chegam mostram um país mergulhado no caos, as pessoas voltaram para o período da barbárie. Sempre seguindo esse conceito de que os haitianos não são capazes de gerir o seu próprio país e muito menos agora nesse período de destruição. Qual a sua impressão em relação a isso e como as pessoas estão lidando com o problema?
A impressão que eu tive é que era um país pobre. Mas o que eu vi não me diferenciava de nenhuma cidade dessas do Recôncavo nordestino onde o poder público não chega. De uma forma geral, achei que eles estão tentando retomar a vida, o comércio está funcionando, os bancos funcionam, o transporte público funciona. Em alguns lugares você consegue comprar um caminhão pipa para abastecer as casas, existem postos de gasolina e também hospitais. Onde é possível, está funcionando. Não se vê tumulto na rua, nem briga, nada disso. Nos grandes acampamentos, a vida está fluindo normalmente.

Por exemplo, a gente viu um acampamento venezuelano onde as tendas estavam todas bem colocadas e as pessoas faziam fila para receber comida. A gente foi para outro acampamento organizada por um padre no qual todas as barracas estavam enfileiradas com números, cada um sabia quem era o seu vizinho, todos tinham comida, estavam cozinhando a lenha – que é um costume deles. Na cidade existem feiras livres, onde as pessoas estão vendendo as suas verduras e outras coisas. Não se vê nenhum sinal de bagunça nas ruas.

O que se sente muito é a presença militar. Mas não no sentido de botar ordem e sim no sentido de botar medo mesmo. Existem tanques de guerra e armas com mira a laser. Às vezes se podem ver campos enormes totalmente vazios mas com um contigente de 200 ou 300 soldados. Por quilômetros de distancia onde não existe nem um ser humano mas os soldados estão lá. Em uma feira pequena com 4 ou 5 barraquinhas não falta o tanque de guerra estacionado ao lado. Você se pergunta, para que serve isso?

Em relação a projetos para daqui para frente. Existem duas vertentes que estão se destacando. De um lado, os que falam que a questão da reconstrução passa pelas empresas, que tem o direito de levar adiante essa tarefa de recriar todos os projetos de infra-estrutura. Por outro lado, há os que dizem que é tempo de finalmente adotar um sistema participativo onde os haitianos tenham voz e decidam que caminho querem seguir. Pelo que você observou que lado terá mais força?
Com essa invasão que se vê por lá, não vejo muita possibilidade de que eles possam decidir. Mas, pelo menos da parte dos sindicatos, a idéia é qualificar as pessoas para que possam se inserir e participar na reconstrução do país. Nós não entramos em contato com o governo para ter uma idéia. Os sindicatos estão tentando sem sucesso conseguir ajuda do governo para se manter. Mas eu não sei se eles têm definido claramente essa linha do que vão fazer ou como vai ser feito. Eles não têm nenhuma garantia, nem certeza. Acho que até o governo está perdido esperando alguém chegar e dizer o que eles precisam fazer. Acho que os haitianos não têm muita segurança do que vai acontecer.

3 comentários

  1. TESTE JORGE ROCHA

  2. Muito bom saber que o povo haitiano está seguindo em frente, lutando por seu futuro, pela reconstrução do país, pela vida. Deus está conosco!

    Very good to know that the Haitian people are moving forward, fighting for his future by rebuilding the country, for life. God is with us!

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