“Wi No Kapab”: a ideologia americana no Haiti
Por Bruno Garcez, para o Haiti.Org

Eles chegaram, como sempre chegam, e já tomaram conta de tudo e de todos, causando desconforto entre os demais, também como de praxe. Mas eles podem fazer isso? “Yes, they can”. Se fazem, é porque podem, ou melhor, porque são solicitados a fazê-lo, como frisou o assessor de Segurança Nacional Denis McDonough.
O funcionário do Departamento de Estado lembrou que a PM do mundo só foi acionada depois que o presidente haitiano, René Preval, pediu que eles assumissem o controle da pista do aeroporto de Porto Príncipe.
Após o controle consentido do aeroporto, eles mandaram embora aviões do Brasil, da França e da Medecins Sans Frontiers, ao mesmo tempo em que distribuíam quantidades imensas de alimentos para a população desesperada. Queriam mostrar que são “good guys”, e também “bon bagays”, como dizem os locais.
Quando o cônsul-geral do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, disse, em um “deslize”, que a tragédia que tirou dezenas de milhares de vidas era uma “boa desgraça”, talvez não estivesse expressando apenas uma impressão pessoal, mas falando em nome de mais gente…
Um Estado falido assolado por uma tragédia de proporções bíblicas assusta o “primo rico” ao norte por diversos motivos. Claramente, há o temor de que milhares de haitianos decidam enfrentar as ondas para chegar a Miami ou a qualquer outra cidade do país.
Além disso, ainda que pouco se tenha falado sobre o tema, um Estado já fragilizado e que vive uma situação algo similar à de ter sofrido uma hetacombe nuclear, seria pouco ou nada capaz de controlar quem cruza suas fronteiras.
O pânico e a paranóia foram acentuados após o ataque frustrado do jovem nigeriano que tentou detonar um avião em movimento, ao acionar explosivos presentes em sua roupa de baixo, o que pareceu provar que o terrorismo atual não respeita nem mesmo os espaços mais íntimos.
Há quem acredite que as ações dos mariners e afins que agora apinham o Haiti são movidas por boas intenções. Talvez, mas custo a que acreditar que tudo se limite a isso.
O que poderia ser uma oportunidade de ouro para que a comunidade internacional se unisse em torno de uma estratégia comum de reconstrução pode enveredar por um caminho muito pouco promissor.
O momento seria propício para buscar soluções ousadas e inovadoras no médio e longo prazo em áreas que vão da agricultura à arquitetura e de promover parcerias nestes setores entre profissionais locais e peritos e organizações internacionais.
Mas agora parece que quem dá as cartas são os homens de verde vindos do norte. O negócio deles é apostar nas “soluções simples” e de impacto imediato e paliativo – alimentos são distribuídos e as fronteiras são fechadas. Mas não é cogitada sequer uma melhoria duradoura para o Haiti e que impedisse um terremoto ou um furacão de pura e simplesmente dizimar milhares de pessoas.
E o que fazer? A história mostra que contra os norte-americanos a gritaria indignada tende a cair em ouvidos moucos. Eles podem pura e simplesmente agir como bem entendem? “Sim, nós podemos”, eles devem pensar. Ou, como se diz em kreole, “Wi No Kabap”.
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