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Liderança brasileira foi construída no hiato de poder dos EUA

Muitas observações tratam o terromoto que devastou o Haiti como uma maldição da natureza. Isso é um erro: a calamidade no país é política. O tremor de 7 pontos na escala Richter que matou talvez 50 mil (na estimativa mais recente da Cruz Vermelha) é de igual magnitude ao que atingiu a Califórnia em 1989 – e tirou a vida de 63 pessoas, quase um milésimo da mortandade registrado no Caribe.

Não é difícil entender por que o terremoto haitiano foi tão devastador. Péssima qualidade da infraestrutura existente, muitas casas frágeis, de madeira, e mesmo o alto percentual de crianças na população (50% dos habitantes da capital) que são, evidentemente, mais fracas fisicamente. Os quartéis do corpo de bombeiros do país foram destruídos, assim como o principal aeroporto e o porto mais importante, dificultando o trabalho da defesa civil, o recebimento de ajuda humanitária, a busca por sobreviventes e o atendimento dos feridos.

Contudo, há um debate mais amplo sobre as causas da pobreza estrutural dessa nação. Militares brasileiros com quem conversei chamam a atenção para o contraste com a República Dominicana, que ocupa a parcela leste da mesma ilha onde está localizado o Haiti, e tem uma situação bem mais confortável. O texto mais interessante que li sobre o tema lista diversas razões. Algumas delas:

- A revolução do Haiti expulsou a parcela de maior instrução da população(que fugiu dos escravos em revolta) e o novo país nasceu com pesada indenização de guerra com a França, a ex-metrópole colonial, que só terminou de ser paga no século XX, e mesmo assim às custas de novas dívidas externas. Foi uma transição bem diferente do que aquela realizada pelos EUA, Brasil ou pela América Espanhola, onde as independências foram conduzidas pelas elites locais: os Founding Fathers, os criollos, o príncipe herdeiro do trono de Portugal.

- As constantes invasões militares estrangeiras (França, Estados Unidos) e os impactos dos embargos econômicos. As sanções da década de 1990, por exemplo, danificaram bastante a indústria têxtil que ascendia como principal alternativa comercial do país.

- A língua créole falada no Haiti funcionou como um elemento de isolamento internacional, por não ser um idioma de uso difundido, como o inglês ou o espanhol.

- Na era colonial, a especialização econômica no açúcar criou uma dependência perversa desse produto, que requer uma escala de produção muito ampla (latifúndios) para ser rentável e com freqüência resulta em relações de trabalho coercitivo análogas à escravidão. Mesmo depois da independência, o poder permaneceu nas mãos de uma reduzida elite de proprietários, que tem se mantido no controle do país desde o início do século XIX, transformando o Estado numa estrutura mafiosa.

- O descaso com o Meio Ambiente, tornando o Haiti um dos países mais desmatados do planeta, com sérios impactos para a produtividade agrícola. Novamente, há forte constraste com a vizinha República Dominicana.

- Conflitos étnicos entre negros e mulatos, com violência, instabilidade política.

Diante de tais circunstâncias, a ajuda externa para a reconstrução do país é fundamental, a questão é discutir quais as melhores maneiras de aplicá-la de modo eficaz. Um palpite: dar mais voz à comunidade de haitianos no exterior, em particular nos EUA e no Canadá, cuja crescente prosperidade pode ser o motor para retomar os investimentos no país, e quem sabe construir uma alternativa política às famílias da oligarquia.

A rápida reação dos Estados Unidos – US$100 milhões em ajuda e 10 mil soldados – impressiona pela capacidade de ação mesmo em meio às guerras no Oriente Médio. Contudo, coloca em questão a liderança do Brasil (1.250 tropas e US$15 milhões). O mal-estar provocado a partir da tomada pelos americanos do que restou do aeroporto de Porto Príncipe mostra o tipo de problema que virá pela frente. A liderança brasileira no Caribe foi construída durante o hiato de poder nos EUA, quando Washington estava no auge dos conflitos no Iraque. Até que ponto as ambições do Brasil se sustentam diante do que parece ser a disposição de Obama de voltar a envolver os Estados Unidos mais firmemente na região?