#haitibr: jornalismo solidário em rede

O terremoto que devastou o Haiti traz à tona a problemática situação do país antes mesmo da catástrofe e coloca em discussão o futuro desse povo já tão castigado. E nesse momento é de extrema importância o monitoramento das ações internacionais no processo de reconstrução e o debate qualificado sobre aquilo que fez, faz e fará parte da história da nação responsável por uma das maiores, senão a maior, revolução negra do mundo.
E são justamente esses os objetivos do projeto Haiti.Org: dar visibilidade à história do país que muitas vezes não tem espaço na grande imprensa, oferecer um ambiente de análise crítica sobre o futuro do Haiti, pensar formas de ajudas humanitárias efetivas e, acima de tudo, não deixar que a situação do povo haitiano caia no esquecimento após o “boom midiático” subseqüente ao trágico acontecimento de 12 de janeiro.
“Depois que o interesse da mídia e dos cidadãos brasileiros passar, quando um novo assunto dominar a pauta da opinião pública, o Haiti continuará a viver uma tragédia. O nosso projeto inicial, que está descrito no site, pretende criar um canal permanente de informações e ações sociais e não ser apenas um veículo para a expressão momentânea de uma dor coletiva. Isso também é importante, mas o mais importante é saber que a humanidade precisa assumir a dívida que tem para com esse país e esse povo, cujo sofrimento, até mesmo para nós, no Brasil, é inimaginável”, explica um de seus criadores, o jornalista Rodrigo Savazoni.
No site e no perfil @haitibr no Twitter, notícias quentes estão sendo divulgadas a todo o tempo sobre o resgate dos corpos, as ajudas internacionais, os mecanismos de doações disponíveis, além de reportagens aprofundadas sobre o caos instaurado por lá e o que isso representa no contexto mundial. O Haiti.Org se propõe ainda a reunir os conteúdos espalhados pela web, tornando-se uma grande e completa referência sobre o assunto na rede.
Nas palavras do idealizador do projeto, o também jornalista Aloísio Milani: “O objetivo é construir um conteúdo independente”. E qualquer interessado, pode ajudar. “Vamos divulgar e ampliar o site pedindo que as pessoas colaborem com notícias, reportagens, análises, traduções, ideias de cooperação. Tudo isso focado nesse primeiro momento na ajuda humanitária, a necessidade mais premente do povo haitiano”, explica. (Veja como colaborar com o projeto Haiti.Org)
Savazoni, Milani e André Deak, o terceiro criador do projeto, contam ainda que estão trabalhando na compilação das informações divulgadas sobre doações financeiras à reconstrução do Haiti por parte de governos, instituições e pessoas físicas com o intuito de criar um mapa de monitoramento dessas ações. “Talvez alguns astros de Hollywood não se importem tanto com o uso dos recursos daqui a dois ou três meses, mas, com certeza, ele fará falta para uma pessoa que perdeu sua família e não teve ajuda por um eventual mau uso do dinheiro”, diz Milani.
O projeto Haiti.Org
A ideia dos jornalistas de cobrir a situação no Haiti é anterior ao terremoto e estava inicialmente ligada ao acompanhamento dos trabalhos da missão de paz da ONU, liderada pelo Brasil, naquele país. Eram cerca de 10 mil soldados em território haitiano, o que representa a maior missão internacional do Exército Brasileiro e pouco se falava no assunto. “O principal, para nós, sempre foi entender que uma missão de paz não se faz só com soldados, mas principalmente com solidariedade e cooperação”, diz Rodrigo.
O contato dele e dos demais com a realidade do Haiti vem desde 2004, quando trabalhavam os três juntos na Agência Brasil e fizeram uma ampla cobertura sobre o tema. “Viajei quatro vezes para Porto Príncipe. A primeira no jogo entre a seleção do Brasil e do Haiti. Dias antes da partida, época em que a favela de Cite Soleil, a maior do Caribe, sequer era ocupada pelas tropas da ONU, entrei lá com um guia e um intérprete para descrever a vida de uma família pobre. Sem escolta. E de propósito. Para ouvir o que eles tinham a dizer sem um fuzil do lado. Na última vez voltei mais uma vez para Cite Soleil, agora com a favela já ocupada, mas novamente sem a escolta dos brasileiros ONU”, conta Milani.
Como resultado foi produzido um dos primeiros especiais multimídia feitos no país, a reportagem “Bon Bagay Haiti”, um audioslideshow só com depoimentos de moradores da favela. “Foi a primeira vez que uma equipe entrou no lugar mais pobre da mais pobre das favelas de Porto Príncipe para conversar com os moradores. As imagens falam por si. Desde a tragédia, tenho pensado, sem demagogia, na Dona Enel, mas principalmente naquele molequinho que nos olha no fim do filme, com um olhar esperançoso. Talvez ele esteja agora em uma vala comum”, fala Savazoni citando pessoas presentes no trabalho.
Essa proximidade dos jornalistas com a realidade e povo haitiano há anos garante a qualidade da cobertura feita pelo Haiti.Org. “Ao longo do acompanhamento da situação do Haiti, acabamos formando uma boa lista de fontes entre ativistas, cidadãos, políticos, diplomatas e militares. Agora, com o terremoto, muitos de nossos contatos civis estão sem comunicação, alguns deles, infelizmente, na lista de desaparecidos. Ainda não sabemos se estão bem”, conta Milani, que desde o dia 12 tem freqüentado a Casa da Cultura Digital, berço do projeto, para levar informações e propor novas ações para o Haiti.Org.

